Mundano é revelador tanto quanto o antônimo de seu nome: o não mundano, que, entre muitas definições, o adjetivo espiritual se destaca – por libertar da cega ganância, medo e alienação.  O “véu de Maya”, que ilude os homens mundanos não os permitindo ver a realidade, é facilmente removido por esse provocador artista. A meu ver, Mundano é obcecado em revelar, resgatar os citadinos alienados em suas rotinas diárias, é um tapa ardido na cara dos “escravos do trânsito”, dos que não sabem, não vêem e não querem ver. Até mesmo o poder público vem sendo provocado e estimulado pelo graffiti “papo reto” deste inusitado artista. Ou melhor; “artevista”, que transita por temas como gestão de residos sólidos, catadores de materiais recicláveis, preservação do meio ambiente, Belo Monte, desigualdade socioeconômica e, mais recentemente, a maior crise hídrica que o Estado de São Paulo já viveu.
Nos últimos anos, por muitas vezes unimos o graffiti ao cinema em uma parceria generosa e espontânea. Tivemos a honra de influenciar e sermos influenciados por nós mesmos e pelo mundão borbulhante contido neste Brasil. Sou amigo e admirador do Mundano. Já fomos juntos do alto Xingu ao baixo Glicério.  Admiro sua coragem, criatividade e sobre tudo, a simplicidade de sua arte: simples profunda, simples honesta.
Recentemente,  fomos ao fundo de água Atibainha, no Sistema Cantareira, o mais importante reservatório de água do Estado de São Paulo. Mundano, com seus espinhosos Cactus, fez o “mar” virar sertão. Triste imagem de resistência. Assim plantado no chão rachado do nosso maior reservatório de água, um Mandacaru tornar-se a resistência do povo à aceitação de verdades absolutas. Através do artista, também somos, pensamos e mudamos.
Vindo do passado, um velho Escort, ex-náufrago na água que bebemos, virou arte, virou foto e virou filme. A mídia, atenta mais às porcentagens do reservatório do que as causas da seca: foi provocada. O poder público: intimado. E o carro foi retirado do local dias depois. Já os cactos, ganharam a companhia de vegetação nativa. Como se a natureza estivesse querendo tomar de volta o que é seu. Mandacaru não está sozinho. Libertárias possíveis interpretações.

Em “Água Mole, Cidade Dura”, mais uma vez, a atitude é o que conta. A arte alerta às pessoas: “Ei acorda! Vamos agir!”.  Porque, para quem acha que a crise hídrica acabou, lembre-se que o descaso continua, os investimentos, já insuficientes, em saneamento foram cortados pela metade e a degradação nos mananciais prossegue. Lembrando que água é muito importante e que deve ser cuidada, preservada e economizada, mesmo quando tem  água na torneira. Mas, certamente, Mundano não vai nos deixar esquecer tão fácil: em uma esquina movimentada ou embaixo de uma viaduto sujo: “Água Mole, Cidade Dura”.

André D’Elia – 28 anos, pai, skatista e cineasta diretor dos filmes Belo Monte, Anúncio de uma Guerra e A Lei da Água (Novo Código Florestal).

OBRAS DA EXPOSIÇÃO

Cantiga de vem-vem